have a BREAKFAST


Às vezes eu sinto que estou vazando. Que estou me perdendo e não consigo localizar por onde eu escorro. Então meu apartamento vira uma zona, eu ganho alguns kilos. Eu compro chocolates, só para escondê-los pelos armários e desistir de comê-los em seguida. Compro um monte de roupas que eu não tenho certeza se vou usá-las. Corro 10Km, machuco meus pés e fumo 3 cigarros em seguida. É exaustivo. Eu simplesmente não sei onde está o vazamento. Faz mais de uma semana que eu não consigo trabalhar direito. Eu não consigo dormir direito. E meu corpo ameaça entrar em colapso, pois já não sei se eu consumo nutrientes suficientes para deixá-lo inteiro. Não consigo encontrar o vazamento. Embora eu saiba quem são as pessoas que eu amo, e que se eu precisar elas estarão lá para mim. Eu me sinto cruelmente sozinha e sem um estímulo em meus músculos para fazer nada quanto a isso. Não. Não é depressão. É só um estado de descontrole interno em que eu já nem tenho mais certeza de como se digitam as palavras direito. Porque é tão difícil, porque parece tão difícil viver? É a cidade? A cidade faz isso com a gente? Essa cacofonia ensurdecedora de gente carente, medíocre, ingênua, cumprindo seus papéis sociais e suas rotinas? Eu estou vazando e já não sei mais como fazer tudo isso. Estou vazando e tentando desesperadamente me reunir e acalmar um pouco as coisas. Não agüento mais ficar deitada. Também não agüento sair, me relacionar, sentar, comer, tomar café, ler, estudar, conversar, namorar, sexo, bebidas, problemas, dinheiro, compras, contas, planos, dentista, ginecologista, máfia wars, recados, aniversários, teatro, peças, jantares e o gosto de adoçante. Não agüento mais produtos diet. Não agüento mais nada. E só tenho tido pesadelos. Fui muito cruel com um rapaz adorável no último domingo e agora estou me corroendo de culpa. Já não tenho certeza de nada. E faz muito calor. Chove, mas continua a fazer calor. Muita glicose no sangue. Muitos papéis na reciclagem. Eu não tenho idéia de mais nada. Acabou o tempo de deixar quieto. Um feriado inteiro. Um feriado inteiro esperando as coisas se acalmarem e voltarem a normalidade. Hoje cedo tive um vislumbre de sanidade. Seis meses sem treinar e fiz a prova da SP Classic 10K inteira. Até o final. Demorei vinte minutos além do que costumava fazer, mas cheguei até o final. Saí de lá e sentei na padaria da Lorena para ler o jornal e tomar café da manhã. Estava indo tudo tão normal. Mas agora, mais um domingo. Minha cabeça dói. Atordoada.  O jogo não pára. Eu queria apertar o botão do pause, por algumas horas. Alguns dias. Só queria poder parar um pouco. Descobrir por onde tudo está vazando.



Escrito por Holly G. às 19h32
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Calor insuportável. Duas horas presa no trânsito.
Cheguei em casa, e
Crusoé no msn...
Sexo virtual em italiano. Ah! Acho que dá para desculpar essa, né?



Escrito por Holly G. às 19h35
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GERALD SAI DE CENA

Ilustrada de hoje. Gerald Thomas sai de cena. Está aí uma notícia que sempre pensei que me faria rir em júbilo. Nunca fui muito fã de Gerald, cheguei inclusive a fundar uma comunidade no Orkut (nos idos de 2000...)de apoio ao seu suicídio. Fiquei chocada com suas últimas produções. Não pela qualidade artística, mas pelo deslumbre absolutamente sem critérios que o público dedicava simplesmente por se tratar de Gerald Thomas. As peças eram um pouco mais do mesmo, e de uma preguiça sem tamanho. Uma atitude poser, que parece que se tornou o uniforme básico do cenário teatral brasileiro. No final não me sobra nada. E nada por nada, prefiro ficar em casa usando pijamas e assitindo Simpsons. Eu fui ávida ler a saída triunfal de Gerald (pena que aqui não dá para reproduzir a entonação correta para se pronunciar esse nome...) na matéria do jornal e, que surpresa! Gerald Thomas é o homem! Gênio sim. Pois você não precisa gostar das obras de um gênio, para reconhecer as atitudes que o fazem gênio. Gerald Thomas sai de cena por insatisfação com a classe, e se diz cansado da repetição nas artes. (Acho que vou ligar para ele vir comer pizza e assistir Simpsons comigo!) Genialidade é reconhecer o hiato criativo que vivemos e assumir que contribuiu para ele. Sempre achei que, parte de encontrar a maturidade como artista, está em saber assumir nossas limitações e saber falar “não”. Uma amiga querida se recusou a apresentar um monólogo no Satyrianas porque sabia que não estava em um nível de qualidade apresentável. Acho de uma coragem invejável esse tipo de atitude. Se mais pessoas tivessem esse bom senso e essa elegância, talvez as artes cênicas não viveriam um período de tamanha mediocridade. Talvez a cidade não tivesse cento e tantas peças em cartaz. Talvez sobrassem apenas uma dúzia delas. Mas com certeza, essa dúzia seriam peças dignas de serem chamadas de teatro. Eu aplaudo Geraldo Thomas. Eu aplaudo de pé. Eu aplaudo aqueles que sabem sair de cena. Pois essa atitude exige mais genialidade do que subir em um palco.



Escrito por Holly G. às 12h51
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PORQUE É IMPOSSÍVEL MINHA VIDA FICAR TEDIOSA

Lá estou eu, como sempre, fazendo teste para publicidade. Chego à produtora. “Oi, Oi, Oi!”. Campanha de Natal para uma marca de chocolate. Eu vou fazer mãe de alguma criança insuportável para variar. Pego minha ficha, sento-me à mesa para preencher e... Dezenas de Papais Noéis a minha volta. Sério. De todos os tipos. Simpáticos velhinhos, de cabelos e barbas grandes e brancas. Todos usando a roupa vermelha de veludo (Nesse calor insuportável que tem feito em SP), cinto preto na barriga, óculos na ponta do nariz. Parei por um segundo, só para garantir que não era uma pegadinha. Não. Não era. Era como ter atravessado um guarda-roupa e parado no Mundo de Nárnia. Papais Noéis fazem parte de uma casta toda especial. Esse tipo de “Papai Noel verdadeiro”, desses que tem barba e cabelo brancos de verdade, são muito raros. Eles se preparam o ano todo para isso, usam produtos especiais para não deixar a barba amarelar e dominam todo o mercado de entretenimento natalino de São Paulo. Tanto o empresarial, quanto o familiar. As instituições públicas geralmente são obrigadas a vestir algum professor com uma roupa de cetim vagabunda e barba de pelúcia. Os cachets são bem altos para a aquisição de um “Papai Noel verdadeiro”. Afinal, Papai Noel trabalha uma vez por ano e precisa se sustentar na Lapônia até o próximo Natal. Eles todos se conhecem entre si (devem morar no mesmo condomínio fechado... ou talvez haja um Clube de Campo de Papais Noéis, um sindicato...), e andam acompanhados de velhinhas fofinhas (que são suas esposas na vida real e que não lembram em nada as pseudo-gostosas que ficam de vestido curto ao lado deles no shopping) ou de seus filhos. Tinha Papai Noel de tudo quanto é jeito. Alguns mais taciturnos, outros, desengonçados, suando em bicas. Tinha Papai Noel gordo, magro. Uns mais carecas, outros de cabelos enroladinhos. Mas todos eles com aquela atitude típica do “bom velhinho”. Enquanto as esposas tricotavam (Literalmente!) em outro canto da sala de espera, os velhinhos conversavam e se atualizavam sobre as novidades do ramo natalino. Conversa de máfia.

- Opa! Tudo bom com você? Quanto tempo!

- Ah, pois é. Fiz a cirurgia de vesícula esse ano. 

- É, melhor adiantar, porque nessa época a coisa complica.

- Verdade! Agora não dá para parar.

- Não. Não dá. Vai fazer qual shopping?

- O Jardim Sul.

- Eu fiz Jardim Sul por 9 anos.

- 9 anos? Olha só.

- 9 anos. Aquele lá no Morumbi, né? Era pequenininho na época.

-Mas estão pagando pouco esse ano.

-É. Tá todo mundo reclamando. Tão pagando muito pouco

- É. Muito pouco.

- Muito pouco.

-Muitas entregas?

- Ah! Aquela coisa, sabe como é.

- Sei, Sei.

- Ano passado fiz entrega até as 5h da manhã. Era 5h da manhã, não era? (o filho acena afirmativamente) Isso 5h da manhã. Fiz entrega até em Tatuí!

- Mas tem que fazer correndo, senão não dá tempo.

- Não dá!

- Não dá!

- Não dá!

- A gente pega trânsito, e se atrasa uma entrega, ferra tudo.

-Ferra!

- E aquela vez? Lembra aquela vez? (filho acena afimativamente) Pegamu um trânsito, eu tava no Brooklin, tinha que fazê entrega em Higienópolis. Chegamu lá, um tio tinha colocado uma roupa e entregado os presente. E daí? Como é que fica?

- E o cachet, né?

- É! O cachet! Ah, eu falei. Vocês me contrata, e daí colocam o tio, e como é que eu fico?

- Ah, por isso que eu falo. Comigo é assim. 50% quando contrata, e 50% na entrega.

- É, tem que ser assim.

- Tem que ser. Senão, como é que a gente fica?

- Tem que ser.

- Já fiz entrega até em Tatuí!

- Em Tatuí?

- Em Tatuí!

- Teve uma vez que eu perdi uma entrega por causa de acidente. Cheguei lá, a família tinha batido o carro. Uma tristeza.

- Poxa, bem no Natal.

- Bem na noite. Fiquei sem o cachet!

- Mas nesse caso, o que vai fazer, né?

- Ah, não tem o que fazê!

- Não tem.

- Não tem.

- É, a gente passa a noite fazendo entrega. Já faço entrega há 15 anos! Fiz entrega até em Tatuí! 15 anos! É! Não? 15 anos? (o filho acena afirmativamente) 15 anos.

- Ano passado fui fazer uma entrega lá na Vila Nova Conceição. Marcaram pro horário, eu tava lá né. Daí cheguei a mulher vem falar que tava faltando algumas crianças, que não tinha chegado ainda.

- Aí é difícil!

- É difícil!

- É difícil! Eu falei para ela, “Dona, não dá para ficar esperando não. Me atrasa as outras entregas. A senhora marcô, a gente faz a entrega para quem estiver aí mesmo. Depois você fala que o Papai Noel já voltou pro Polo Norte”.

- Ah! Tem que ser assim!

- Tem que ser.

- Tem que ser.



Escrito por Holly G. às 12h39
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SER MULHER NA UNIBAN

 

 

Não consigo nem verbalizar o quanto eu estou revoltada com esse absurdo da UNIBAN. Há algumas semanas uma aluna foi perseguida, hostilizada e ameaçada porque estava com um vestido considerado muito curto. A tal garota é muito bonita. Cara de suburbana, mas bonita. Aquele tipão, apresentadora de programa de auditório. Dançarina de banda de axé. Cabelo esticado na chapinha, tingido de loiro “água de salsicha” com raiz aparente. Sobrancelhas pretas. Peitão, bundão, pernão. Obviamente é uma garota vaidosa. Ainda que cafona. Acaba chamando atenção, gerando inveja em mulheres inseguras. Não é difícil cair na vulgaridade com esse perfil. Nada muito diferente do que a gente vê todos os dias nas ruas, nos shoppings, nas praias, na TV e entre as pseudo-celebridades da Globo. Então essa menina vai para a faculdade um dia com um vestido horroroso. O vestido tem mangas compridas, é fofo no corpo e se ajusta nos quadris. E para por aí. Feito de um tecido sintético meio brilhante que lembra uma lycra de má qualidade. Rosa Choque! Ok, ela poderia ser presa pelo “Esquadrão da Moda”, mas o que aconteceu foi que milhares de alunos iniciaram um tumulto em volta da sala de aula em que ela estava. Gritando como vândalos, bárbaros, unos. Chamavam-na de puta e ameaçavam estuprá-la. Urravam. Pulavam. Batiam no peito. Como gorilas raivosos em alguma floresta africana. Um episódio de barbárie e primitivismo que me fez lembrar cenas daquele filme Hotel Ruanda. É muito chocante ver o quão perto estamos de perder a humanidade. Então, ontem, qual foi a decisão dessa renomada instituição de ensino? Expulsar a aluna agredida. Com o argumento de que ela PROVOCOU (!!!) a reação dos agressores. Ok, vamos falar português claro aqui. E se esses animais que freqüentam aquele engodo pedagógico tivessem sucedido em suas ameaças e chegado às vias de fato? A UNIBAN teria dito “Bem feito!”? “Ela mereceu”? Um dos argumentos mais atrozes e sexistas, utilizado por estupradores em todos os tempos, é “Ela estava pedindo por isso”. E se não é exatamente esse o argumento, e a base de conduta, de uma instituição de ensino superior para solucionar esse caso. O Talibã começou como um grupo de intelectuais islâmicos que, entre outras coisas (justificadas pelas suas crenças de condutas aceitáveis ou não), jogavam ácido nas pernas de mulheres que usavam saias nas universidades. Um dia, elas acabaram todas embaixo de burcas. Violentadas por maridos. Acusadas de crimes kafkianos. Apedrejadas. Comercializadas como animais ainda na infância. Impossibilitadas de opinarem, desenvolverem-se profissionalmente, de livre opinião. Impossibilitadas até de ir e vir. Sem o direito de amar. Muitas mulheres lutaram batalhas de vida para que a minha geração pudesse viver um mínimo de igualdade de direito entre gêneros. Uma mulher é um ser livre. Com autonomia absoluta sobre seu corpo. Ninguém pode tocar em seu corpo sem sua autorização. Não importa de que forma você esteja vestida. Não importa de que forma você esteja agindo. NADA justifica uma agressão. NADA justifica. Por mais inapropriada que essa garota estivesse vestida naquela noite, justificar uma manifestação deplorável com a expulsão da vítima, nos joga séculos atrás em injustiça, preconceito e uma cultura de desrespeito e discriminação contra a mulher. Ser mulher é pauleira. Ser uma mulher bonita é mais pauleira ainda. Nós devíamos todas, nos recusar a aceitar uma situação como essa. Devíamos todas nos juntar e fazer piquete em frente às unidades da UNIBAN. Uma manifestação. Impor nossa presença. Parar de abaixar a cabeça para esse tipo de história. Juntar um bando de mulheres e sentar em frente da porta de entrada. Usando minissaias. 

 

 



Escrito por Holly G. às 15h11
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